quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

As enguias de Eiró

Edição 2797  Gazeta de Santo Amaro


                                                        As Enguias de Eiró
 
Paulo Eiró, para muitos contemporâneos, é apenas o nome de uma rua,  de um teatro e de uma escola localizados na região de Santo Amaro, mas é muito mais que isso: é um registro da história de uma época em que essa região era uma cidade independente da Pauliceia.
Paulo Eiró foi um poeta santamarense e, talvez querendo representar as metamorfoses pelas quais passava, mudou de sobrenome quatro vezes ao longo da vida.
         José Paes, poeta e outro cidadão santamarense, dedicou um verbete no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, estendendo a importância de Paulo Eiró não só à literatura provinciana, mas à literatura regional, quiçá nacional, pois sua vida e discurso apresentam intertextualidade e intersecção com outros literatos importantes do século XIX, sobretudo pelo contato estreito com Álvares de Azevedo- colega da faculdade de Direito do Largo de São Francisco- em que se encontra coincidência na poeticidade melancólica e empática do Romantismo.
          Sua vida poderia ser tematizada em um drama teatral, segundo a biografia A vida de Paulo Eiró, escrita por Schmidt. Nascido em 15 de abril de 1836, aos 11 anos já se dizia apaixonado por sua prima. Precoce em sua inclinação literária, aos 12 anos escreveu junto com o pai: Taboas Chronologicas. Aos 19 anos, formou-se pela Escola Normal de São Paulo e foi nomeado professor em Santo Amaro, exercendo o magistério e seu poetar. Suas produções eram declamadas em círculos literários e acadêmicos. Aos 23 anos, desiludido porque sua musa e amada estava noiva de outro, internou-se em um seminário, mas ficou pouco tempo, aconselhado a retornar a Santo Amaro, pois sua depressão e poesias melancólicas e abolicionistas passaram, por assim dizer, a inquietar o ambiente do seminário.
           Deprimido, fazia caminhadas sem destino. Em uma dessas caminhadas, mais longínquas, chegou a ir para Mariana, em Minas Gerais, passando meses sem dar notícias. Ao voltar, viu uma movimentação próxima à igreja da Sé e, lamentavelmente, para si, era o casamento de sua prima.  E o poeta, segundo Affonso Schmidt, “enlouquecera de amor!”
          Mesmo desiludido, volta a lecionar e a escrever, participando até de eventos comemorativos, como autor de texto de apresentações. Mas as críticas de jornais aforaram suas crises, culminadas em comportamentos inadequados na sociedade, fazendo com que seu pai o internasse em maio de 1871. Após cinco anos de internação, Paes  morreu no Hospício dos Alienados, de meningite, aos 36 anos de idade.
         Não deixou um livro organizado, mas alguns de seus poemas, agrupados por Schimidt estão acessíveis na internet, tornando-o imortal.
        Três versos de seu poema mais famoso, Sobrado,  é registrado no monumento do escultor Julio Guerra: “O homem sonha monumentos /  E só ruínas semeia, /  Para pousada dos ventos; / Como os palácios de areia/  Dos seus brincos infantis, / Mal divisa o que apetece, /  Que tudo se desvanece... /   Feliz quem ama! Feliz!”
   O poeta, homenageado em construções, foi humano:  sofreu de amor, sofreu as críticas, sofreu a loucura (expressão de sua alma, mas também de suas ideias inquietantes não a si  apenas, mas aos outros). Ao lermos  seu aforismo, no que parece um outdoor de cimento e de provocações, somos afrontados. E sua máxima se renova, atualizando-se.
 
                                           Edição 2797 - 20/12/14 a 09 de Janeiro 2015