As
Enguias de Eiró
Paulo Eiró, para muitos contemporâneos, é
apenas o nome de uma rua, de um teatro e
de uma escola localizados na região de Santo Amaro, mas é muito mais que isso:
é um registro da história de uma época em que essa região era uma cidade
independente da Pauliceia.
Paulo Eiró foi um poeta santamarense e,
talvez querendo representar as metamorfoses pelas quais passava, mudou de
sobrenome quatro vezes ao longo da vida.
José Paes, poeta e outro cidadão
santamarense, dedicou um verbete no Pequeno Dicionário de Literatura
Brasileira, estendendo a importância de Paulo Eiró não só à literatura provinciana,
mas à literatura regional, quiçá nacional, pois sua vida e discurso apresentam
intertextualidade e intersecção com outros literatos importantes do século XIX,
sobretudo pelo contato estreito com Álvares de Azevedo- colega da faculdade de
Direito do Largo de São Francisco- em que se encontra coincidência na poeticidade
melancólica e empática do Romantismo.
Sua vida poderia ser tematizada em um drama
teatral, segundo a biografia A vida de Paulo Eiró, escrita por Schmidt. Nascido em 15 de
abril de 1836, aos 11 anos já se dizia apaixonado por sua prima. Precoce em sua
inclinação literária, aos 12 anos escreveu junto com o pai: Taboas
Chronologicas. Aos 19 anos, formou-se pela Escola Normal de São Paulo e foi
nomeado professor em Santo Amaro, exercendo o magistério e seu poetar. Suas
produções eram declamadas em círculos literários e acadêmicos. Aos 23 anos,
desiludido porque sua musa e amada estava noiva de outro, internou-se em um
seminário, mas ficou pouco tempo, aconselhado a retornar a Santo Amaro, pois
sua depressão e poesias melancólicas e abolicionistas passaram, por assim
dizer, a inquietar o ambiente do seminário.
Deprimido, fazia caminhadas sem destino. Em uma dessas caminhadas, mais
longínquas, chegou a ir para Mariana, em Minas Gerais, passando meses sem dar
notícias. Ao voltar, viu uma movimentação próxima à igreja da Sé e,
lamentavelmente, para si, era o casamento de sua prima. E o poeta,
segundo Affonso Schmidt, “enlouquecera de amor!”
Mesmo
desiludido, volta a lecionar e a escrever, participando até de eventos
comemorativos, como autor de texto de apresentações. Mas as críticas de jornais
aforaram suas crises, culminadas em comportamentos inadequados na sociedade,
fazendo com que seu pai o internasse em maio de 1871. Após cinco anos de
internação, Paes morreu no Hospício dos Alienados, de meningite, aos 36
anos de idade.
Não
deixou um livro organizado, mas alguns de seus poemas, agrupados por Schimidt
estão acessíveis na internet, tornando-o imortal.
Três
versos de seu poema mais famoso, Sobrado, é
registrado no monumento do escultor Julio Guerra: “O homem sonha monumentos / E só ruínas semeia, / Para pousada dos ventos;
/
Como os palácios de areia/
Dos seus brincos infantis, / Mal divisa o que apetece, / Que tudo
se desvanece... / Feliz quem ama! Feliz!”
O poeta, homenageado
em construções, foi humano: sofreu de amor, sofreu as críticas, sofreu a
loucura (expressão de sua alma, mas também de suas ideias inquietantes não a si
apenas, mas aos outros). Ao lermos seu aforismo, no que parece um
outdoor de cimento e de provocações, somos afrontados. E sua máxima se renova,
atualizando-se.
Edição
2797 - 20/12/14 a 09 de Janeiro 2015