Caro leitor, já comentei algumas vezes que, em dias de arrumação de gavetas e armários, coisas interessantes acabam sendo encontradas. Em tempos modernos, organizar arquivos de computador também pode ser rememorar ou descobrir textos escritos outrora. Isso aconteceu nesta semana, encontrei este conto e me surpreendi, pois eu o havia esquecido, não no fundo da gaveta, entre páginas de um caderno, mas em um arquivo, em uma pasta virtual. Compartilho com vocês meu achado: “EIS QUE. Sim, foi a primeira vez que se sentiu sem lugar no mundo. Tinha consciência de que o mundo era grande. Não conhecia todos os lugares, mas sentia: estava sem lugar no mundo! E essa certeza o tornou imóvel, ainda que por fração de segundos quisesse sair correndo, voar, fugir... Não, não cabia no mundo! Outrora o mundo não cabia em si, de tanta ânsia que tinha, de tantos poderes que tinha: de conquistar o mundo, de conquistar as pessoas, de conquistar objetivos. Podia tudo. Nada lhe pesava. Tinha a volúpia da paixão, o heroísmo do pai que protegeria sua prole, a coragem dos jovens que nada temem, a fé dos devotos que nada duvidam. Agora não tinha nada. Tinha sim, um vazio tão grande tal qual o infinito que um dia ouvira na aulas de física. Restava-lhe apenas a noção de eternidade, e esse tempo imensurável, inconcebível, o assustava demais. Não queria desistir, queria des-existir, desintegrar-se... Não, a ideia de fusão o assustava ainda mais. Não queria ser nada, não queria ter nada. Não queria ser lembrança, não queria ter esperança. Desiludiu-se, concluiu. Passou a vida iludido. E foi essa ilusão que o mantivera vivo. A lucidez o matava aos pouco, pondo-o em coma, inerte, refém de um corpo sem lugar no mundo, sem as asas do pensamento. Se ele não podia ir até as asas, quem sabe as asas, levadas por bons ventos, chegassem a ele.”
sábado, 12 de setembro de 2015
EIS, QUE: ARQUIVOS PERDIDOS NUMA PASTA VIRTUAL
Caro leitor, já comentei algumas vezes que, em dias de arrumação de gavetas e armários, coisas interessantes acabam sendo encontradas. Em tempos modernos, organizar arquivos de computador também pode ser rememorar ou descobrir textos escritos outrora. Isso aconteceu nesta semana, encontrei este conto e me surpreendi, pois eu o havia esquecido, não no fundo da gaveta, entre páginas de um caderno, mas em um arquivo, em uma pasta virtual. Compartilho com vocês meu achado: “EIS QUE. Sim, foi a primeira vez que se sentiu sem lugar no mundo. Tinha consciência de que o mundo era grande. Não conhecia todos os lugares, mas sentia: estava sem lugar no mundo! E essa certeza o tornou imóvel, ainda que por fração de segundos quisesse sair correndo, voar, fugir... Não, não cabia no mundo! Outrora o mundo não cabia em si, de tanta ânsia que tinha, de tantos poderes que tinha: de conquistar o mundo, de conquistar as pessoas, de conquistar objetivos. Podia tudo. Nada lhe pesava. Tinha a volúpia da paixão, o heroísmo do pai que protegeria sua prole, a coragem dos jovens que nada temem, a fé dos devotos que nada duvidam. Agora não tinha nada. Tinha sim, um vazio tão grande tal qual o infinito que um dia ouvira na aulas de física. Restava-lhe apenas a noção de eternidade, e esse tempo imensurável, inconcebível, o assustava demais. Não queria desistir, queria des-existir, desintegrar-se... Não, a ideia de fusão o assustava ainda mais. Não queria ser nada, não queria ter nada. Não queria ser lembrança, não queria ter esperança. Desiludiu-se, concluiu. Passou a vida iludido. E foi essa ilusão que o mantivera vivo. A lucidez o matava aos pouco, pondo-o em coma, inerte, refém de um corpo sem lugar no mundo, sem as asas do pensamento. Se ele não podia ir até as asas, quem sabe as asas, levadas por bons ventos, chegassem a ele.”
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