sábado, 20 de junho de 2015

Professor já foi normalista, hoje é um ser normal?



Professor já foi normalista, hoje é um ser normal?

Por diversas vezes comecei a rascunhar, mas rabisquei, digo “deletei”. Existem temas muito polêmicos que são, como a metáfora sugere, “mexer em vespeiro”. Mas também não posso ser omissa.
        Quem me acompanha, já me leu falar diversas vezes do ofício de educar, que aqui, para que não haja confusão, vou usar o verbo “ensinar”, sobretudo para distinguir a tarefa que pode ser, genericamente, atribuída a e responsabilidade de outras pessoas na sociedade. Talvez o primeiro problema enfrentado pelo professor seja essa descaracterização da profissão, geralmente depreciadora: um médico, um jornalista, um dentista, um advogado, um administrador, todos, se fizerem um Mestrado, podem ser professores. O contrário não ocorre. Isso quando não, graduandos de outras áreas, como atividade secundária ou complementar, não por formação, passam a ser professores em caráter emergencial.
        Tenho amor à minha profissão, sou professora por opção de permanência nela. Quem me acompanha, já leu crônicas em que falo do CEFAM, que alicerçou o que sou até hoje como docente; quem me acompanha aqui nessa coluna, já leu meus relatos sobre a inspiração que meus mestres como Marisa Neves, Luiz Felippe Matta Ramos, Yuri Alexandre, Zélia Borges, entre outros tiveram, não por serem professores, mas por, como proclama minha amiga cefânica, Silvia Ferreira, "cumprirem bem o ofício a que se propuseram". Não é essa a premissa de qualquer profissão? Não são lindos os juramentos da profissão nos dias da formatura? Todas as profissões têm sua função pessoal e social, nenhuma deve ser menosprezada. Por que essa o é? Gosto das metonimizações literárias e artísticas sobre o tema: A normalista, A professora Maluquinha, Escolinha do  professor Raimundo, Carrossel, Malhação , Música ao longe, Escolinha do Golias, entre outros, porque promovem a reflexão sobre essa e outras profissões. Mas será que é coerente ou uníssona o modelo profissional retratado pelas mídias consideradas fiéis à realidade? Em texto não-artísticos, que dizem divulgar a verdade,  infelizmente, parecem mostrar só um ponto de vista, como bem retratou a professora Daniella Barbos Buttler, no livro Professor: uma imagem esfacelada?... (continua)

sábado, 13 de junho de 2015

Entre biografias e biografados: Diário de Anne Frank, relato de Nanette Koning


 
 
 
Entre biografias e biografados: Diário de Anne Frank, relato de Nanette Konig...

Já tratamos várias vezes, nessa Gazeta, da relação da literatura com a vida das pessoas: de quando a literatura é a vida das pessoas e quando a vida das pessoas é tão interessante que parece ficção literária. Algumas vezes, a pessoa é personagem secundária da história de outra, mas é protagonista da sua própria história ou ainda de uma história narrada por outro escritor. Mas mesmos os diários, memórias, autobiografias,  tudo é só uma versão  dos fatos:  entre a memória escrita, às vezes, pelo distanciamento entre o fato e o registro,  há uma lacuna. Eventos que a palavra não consegue materializar. Ou ao contrário, a palavra cria outra realidade e, assim, a congruência ou contraste entre ficção e registro histórico é tênue; sem deixar de citar ainda que, o leitor, com suas vivências, reimprime o enredo, atribuindo múltiplos sentidos.
         Embora o Supremo Tribunal Federal tenha autorizado as biografias e ainda afirmado que  este controle seria uma  censura, não  vamos comentar aqui o frisson deste assunto em pauta nas últimas semanas.   Mas vamos falar de alguém  que pode ser conhecida por muitos indiretamente como “uma personagem secundária da história” . Eis nossa versão dos fatos  ou ficcionalização deles, como já afirmamos, não por invenção, mas por atribuição de novos sentidos à nossa vida. Dileto  leitor, que honra escrevermos sobre Nanette Konig, vma personagem citada no livro O diário de Anne Frank, logo nas primeiras páginas, como “E.S.” .
Nanette é uma sobrevivente do holocausto, radicada no Brasil. Ela faz palestras, pelas quais não cobra nenhum centavo, e narra as memórias dos 20 meses em que permaneceu em campos de concentração. Também contraiu tifo, como Anne Frank. Depois da liberação do campo nazista, ficou internada por três anos, tratando também a tuberculose.  Teve alterações hormonais por quatro anos.  Nesse interim, recebeu uma carta do Sr Otto Frank, perguntando se podia ser citada no diário da filha, já que o senhor pensava em publicar os textos em breve. Por meio dos livros, já imaginávamos um pouco da luta dos judeus, mas nada como saber da história pela ótica de quem a vivenciou.
A resposta da Nanette continua a mesma até hoje:  “Quem sobreviveu ao Holocausto tem obrigação de testemunhar em memória de sete milhões de mortos que não têm mais voz.”  Escrever sobre ela não é só apresentar a biografada, mas contar algo que diz respeito a toda sociedade, coletividade, quiçá humanidade.  Calar-se é amordaçar a história! E o registro é um lembrete: “Não repitamos as maldades!”