domingo, 29 de novembro de 2015

O FÍGADO E O FOGO DE PROMETEU















Caro leitor, eu nunca escrevi sobre isso, mas tenho problema no fígado. Embora não tenha bebido ou danificado conscientemente o meu órgão, tenho cirrose e, mesmo sendo sempre seletiva em que tomar como remédio ( ou droga) lembro que outro nome para farmácia é drogaria, onde se busca a cura,mas também encontram-se efeitos colaterais: devo ter cirrose medicamentosa. Bocage, poeta árcade, criticava os ungüentos, que mais matavam que curavam. A literatura fala desse tema, entre  outros,  da simbologia do fígado. Não dá para falar de problemas hepáticos sem citar o mito grego de Prometeu que roubou fogo, símbolo da tecnologia e da sabedoria, pois traria avanço  à sociedade. Talvez ele revele bem, metaforicamente, o suplício pelo qual nós, com problemas hepáticos, passamos.  
     Na mitologia grega, Prometeu foi um defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Héstia e o dar aos mortais. Zeus ,temendo que os mortais ficassem tão poderosos quanto os próprios deuses, amarrou-o a uma rocha por toda a eternidade, enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte. Ou seja, seu suplício era contínuo. A ciência sabe que o fígado se regenera, mas isso é meia verdade. Um fígado cirrótico é um fígado cheio de cicatrizes, por isso não se regenera mais, ao contrário de quando está bom em que pode ter um pedaço retirado. É o que acontece em transplantes entres vivos. Há, além das mais de 500 funções primárias do fígado, algumas simbólicas. Assim como para o coração há uma convenção, inclusive de desenho diferente da anatomia real e é considerado o manifestador de sentimento. O fígado também foi considerado por muito tempo o órgão dos sentimentos. Daí falarmos “pessoa doce”, “pessoa amarga”, “ódio figadal”.
        A Prometeu é creditado um grande passo da evolução humana. E o fígado, que sofre calado, é culpado pela crises de embriaguez. Típico do homem o uso da metonímias: a causa pela consequência. A parte pelo todo. Atentemo- nos!


terça-feira, 6 de outubro de 2015

ESCRITA INSPIRADA EM LEITURA


 



Nem sempre as leituras que se fazem tornam os leitores bons escritores, mas, sem acervo, é impossível escrever bem. No mínimo, ler bastante produz acervo cultural e temático. Às vezes, lemos textos diferentes e vamos fazendo (assim mesmo, gerúndio, ação contínua!) relação entre eles e entre eles e a vida.
     Duas produções sempre estiveram presentes na minha lista pessoal de prediletos: o conto A MOÇA TECELÃ, e a, por assim considerar, crônica reflexiva COMO SALVAR SEU CASAMENTO. Ambos tratam sobre os relacionamentos amorosos. Cito-os aqui porque me inspiraram a escrever, há alguns anos, sobre relacionamentos conjugais, seguindo a estrutura de texto narrativo circular de Marina Colasanti e a temática de Danuza Leão. Ouso compartilhá-lo aqui, o DE VOLTA AO COMEÇO:
   "E passada uma década, aquele enorme amor estava definhando. O sentimento materializado em cartas românticas engavetadas, e aparentemente infinito, corroia-se. Às vezes, numa súplica, ocorria uma cobrança. Esqueciam-se: como lareira, amor se alimenta; planta exige cultivo; sentimento exige ação.
    Moravam na mesma casa, mas a cada dia se distanciavam mais entre o ‘bom-dia’ e o ‘boa-noite’.
    Dividiam despesas, problemas domésticos, mas não mais os sonhos. Não se enxergavam mais. Havia tempos. Havia tempo. Não se escolhia uma roupa para si nem para o outro, era a primeira, sempre a que estivesse à mão. Higiene, não vaidade. Olhos não sincronizados. Bocas não mais se calavam num beijo, silenciando brigas. Não havia. Toques, às vezes, quando na divisão de tarefas, despercebidamente, colocavam a mão sobre um copo, mas jamais sobre os corpos. Um dia, talvez, pensavam, um novo amor para recomeçar. Começar de novo, ser melhor, encantar, encantar-se. Ser o seu melhor, provocar o melhor. Já eram tão desconhecidos, bastariam confirmar, ter coragem. A constatação: estavam separados.
     O primeiro ousou. Numa folha amarrotada, um prenúncio: 'Preciso falar com você à noite!' Dia todo em alerta. À noite, na hora do jantar, olharam-se. Olhavam-se. Viram-se.
Desconhecidos... E de tão desconhecidos, poderiam recomeçar. Olhos na boca que ia começar a falar. Olhos visando os lábios. Olhos visando aos lábios. Um sorriso há muito não fora expresso. 'Você primeiro!' Outra coincidência! Riso e toque no braço. Um arrepio. Talvez um abraço. Desconhecidos, podiam se re-conhecer..."

sábado, 12 de setembro de 2015

EIS, QUE: ARQUIVOS PERDIDOS NUMA PASTA VIRTUAL




Caro leitor, já comentei algumas vezes que, em dias de arrumação de gavetas e armários, coisas interessantes acabam sendo encontradas. Em tempos modernos, organizar arquivos de computador também pode ser rememorar ou descobrir textos escritos outrora. Isso aconteceu nesta semana, encontrei este conto e me surpreendi, pois eu o havia esquecido, não no fundo da gaveta, entre páginas de um caderno, mas em um arquivo, em uma pasta virtual. Compartilho com vocês meu achado: “EIS QUE. Sim, foi a primeira vez que se sentiu sem lugar no mundo. Tinha consciência de que o mundo era grande. Não conhecia todos os lugares, mas sentia: estava sem lugar no mundo! E essa certeza o tornou imóvel, ainda que por fração de segundos quisesse sair correndo, voar, fugir... Não, não cabia no mundo! Outrora o mundo não cabia em si, de tanta ânsia que tinha, de tantos poderes que tinha: de conquistar o mundo, de conquistar as pessoas, de conquistar objetivos. Podia tudo. Nada lhe pesava. Tinha a volúpia da paixão, o heroísmo do pai que protegeria sua prole, a coragem dos jovens que nada temem, a fé dos devotos que nada duvidam. Agora não tinha nada. Tinha sim, um vazio tão grande tal qual o infinito que um dia ouvira na aulas de física. Restava-lhe apenas a noção de eternidade, e esse tempo imensurável, inconcebível, o assustava demais. Não queria desistir, queria des-existir, desintegrar-se... Não, a ideia de fusão o assustava ainda mais. Não queria ser nada, não queria ter nada. Não queria ser lembrança, não queria ter esperança. Desiludiu-se, concluiu. Passou a vida iludido. E foi essa ilusão que o mantivera vivo. A lucidez o matava aos pouco, pondo-o em coma, inerte, refém de um corpo sem lugar no mundo, sem as asas do pensamento. Se ele não podia ir até as asas, quem sabe as asas, levadas por bons ventos, chegassem a ele.”

sábado, 4 de julho de 2015

Do amor aos livros e às letras




Do amor aos livros e às letras

Já tratamos nessa coluna de como a internet pode ser positiva ou negativa. Na verdade, defendo: "as mídias são apenas suportes de ideias ou instrumentos de ações, pois as ideias nelas veiculadas ou as ações resultantes ou permeadas por elas é que devem ser avaliadas". Nunca escondi que sou consumidora compulsiva de livros, seja pelas ideias, pelas narrativas, seja pelo objeto material que são. Para mim, os livros são uma experiência sensorial e estética. Aprecio o cheiro de livro novo, delicio-me com os diversos papeis e formatos de impressão; aguçam-me o designer de livros-brinquedos e as formas não convencionais de certos livros que usam outros recursos, que não a internet e o próprio enredo para se tornarem interativo.
      Sempre presenteio com livros, e já cheguei a ouvir: "Puxa, você dá livro às crianças... elas não vão considerar presente". Porém, as crianças que convivem comigo veem minha paixão por livros e associam "livro é algo tão especial, que é sim um ótimo presente!".
       Não tenho preconceitos, sei que em tempos de falta de tempo temos que ser seletivos e por isso delimitar nossa bibliofilia (Será¿). Amo livros, e também textos avulsos, a ponto de colecionar pastas temáticas com crônicas, fábulas, mitos, lendas,poesias... hemerotecas... De vez em quando abro uma pasta para reler e lembro-me de alguém, e seleciono para mandar por carta ou ainda para fazer uma busca pela internet para postar nas redes sociais. Sim, as minhas novas pastas têm sido na internet, em blogs, páginas nas redes sociais, em comunidades, em grupos... Tenho também sido leitora de poesias e reflexões que me inquietam, me acalmam a alma e dialogam com minhas ponderações diárias. Tenho sido leitora assídua de meu amigo de infância Edivan Costa Gomes, escritor real, com leitores, pois assim como eu, vários leitores interagem comentando (e curtindo). Em momentos, na confluência de vozes, parece dizer o que eu diria: "SEGUNDA FEIRA\ Tenho sonhos apressados\ daqueles que não podem parar ...\Sonhos que recusam a atrofia \ da indiferença e repudiam a inércia\ do conformismo...\\Meus sonhos querem tudo\ e qualquer coisa menor que isto \eu considero um roubo!" e "Eu acredito\ num mundo que existe em meus sonhos\em palavras que insistem em querer dizer\ e numa vida que exige viver\ Sim, eu ainda acredito ..."

sábado, 20 de junho de 2015

Professor já foi normalista, hoje é um ser normal?



Professor já foi normalista, hoje é um ser normal?

Por diversas vezes comecei a rascunhar, mas rabisquei, digo “deletei”. Existem temas muito polêmicos que são, como a metáfora sugere, “mexer em vespeiro”. Mas também não posso ser omissa.
        Quem me acompanha, já me leu falar diversas vezes do ofício de educar, que aqui, para que não haja confusão, vou usar o verbo “ensinar”, sobretudo para distinguir a tarefa que pode ser, genericamente, atribuída a e responsabilidade de outras pessoas na sociedade. Talvez o primeiro problema enfrentado pelo professor seja essa descaracterização da profissão, geralmente depreciadora: um médico, um jornalista, um dentista, um advogado, um administrador, todos, se fizerem um Mestrado, podem ser professores. O contrário não ocorre. Isso quando não, graduandos de outras áreas, como atividade secundária ou complementar, não por formação, passam a ser professores em caráter emergencial.
        Tenho amor à minha profissão, sou professora por opção de permanência nela. Quem me acompanha, já leu crônicas em que falo do CEFAM, que alicerçou o que sou até hoje como docente; quem me acompanha aqui nessa coluna, já leu meus relatos sobre a inspiração que meus mestres como Marisa Neves, Luiz Felippe Matta Ramos, Yuri Alexandre, Zélia Borges, entre outros tiveram, não por serem professores, mas por, como proclama minha amiga cefânica, Silvia Ferreira, "cumprirem bem o ofício a que se propuseram". Não é essa a premissa de qualquer profissão? Não são lindos os juramentos da profissão nos dias da formatura? Todas as profissões têm sua função pessoal e social, nenhuma deve ser menosprezada. Por que essa o é? Gosto das metonimizações literárias e artísticas sobre o tema: A normalista, A professora Maluquinha, Escolinha do  professor Raimundo, Carrossel, Malhação , Música ao longe, Escolinha do Golias, entre outros, porque promovem a reflexão sobre essa e outras profissões. Mas será que é coerente ou uníssona o modelo profissional retratado pelas mídias consideradas fiéis à realidade? Em texto não-artísticos, que dizem divulgar a verdade,  infelizmente, parecem mostrar só um ponto de vista, como bem retratou a professora Daniella Barbos Buttler, no livro Professor: uma imagem esfacelada?... (continua)

sábado, 13 de junho de 2015

Entre biografias e biografados: Diário de Anne Frank, relato de Nanette Koning


 
 
 
Entre biografias e biografados: Diário de Anne Frank, relato de Nanette Konig...

Já tratamos várias vezes, nessa Gazeta, da relação da literatura com a vida das pessoas: de quando a literatura é a vida das pessoas e quando a vida das pessoas é tão interessante que parece ficção literária. Algumas vezes, a pessoa é personagem secundária da história de outra, mas é protagonista da sua própria história ou ainda de uma história narrada por outro escritor. Mas mesmos os diários, memórias, autobiografias,  tudo é só uma versão  dos fatos:  entre a memória escrita, às vezes, pelo distanciamento entre o fato e o registro,  há uma lacuna. Eventos que a palavra não consegue materializar. Ou ao contrário, a palavra cria outra realidade e, assim, a congruência ou contraste entre ficção e registro histórico é tênue; sem deixar de citar ainda que, o leitor, com suas vivências, reimprime o enredo, atribuindo múltiplos sentidos.
         Embora o Supremo Tribunal Federal tenha autorizado as biografias e ainda afirmado que  este controle seria uma  censura, não  vamos comentar aqui o frisson deste assunto em pauta nas últimas semanas.   Mas vamos falar de alguém  que pode ser conhecida por muitos indiretamente como “uma personagem secundária da história” . Eis nossa versão dos fatos  ou ficcionalização deles, como já afirmamos, não por invenção, mas por atribuição de novos sentidos à nossa vida. Dileto  leitor, que honra escrevermos sobre Nanette Konig, vma personagem citada no livro O diário de Anne Frank, logo nas primeiras páginas, como “E.S.” .
Nanette é uma sobrevivente do holocausto, radicada no Brasil. Ela faz palestras, pelas quais não cobra nenhum centavo, e narra as memórias dos 20 meses em que permaneceu em campos de concentração. Também contraiu tifo, como Anne Frank. Depois da liberação do campo nazista, ficou internada por três anos, tratando também a tuberculose.  Teve alterações hormonais por quatro anos.  Nesse interim, recebeu uma carta do Sr Otto Frank, perguntando se podia ser citada no diário da filha, já que o senhor pensava em publicar os textos em breve. Por meio dos livros, já imaginávamos um pouco da luta dos judeus, mas nada como saber da história pela ótica de quem a vivenciou.
A resposta da Nanette continua a mesma até hoje:  “Quem sobreviveu ao Holocausto tem obrigação de testemunhar em memória de sete milhões de mortos que não têm mais voz.”  Escrever sobre ela não é só apresentar a biografada, mas contar algo que diz respeito a toda sociedade, coletividade, quiçá humanidade.  Calar-se é amordaçar a história! E o registro é um lembrete: “Não repitamos as maldades!”

sábado, 30 de maio de 2015

Ergamos às mãos aos céus II



Ergamos às mãos aos céus e estendamos as mãos aos irmãos (continuação)

A divulgação religiosa não se restringe às leituras e celebrações em templos; músicas e outras produções configuram uma releitura, uma adaptação da bíblia à contemporaneidade. Na década de 70, um divulgador do cristianismo por meio da música foi o padre Zezinho, na década de 70 e padre José Maria nas década de 80 e 90. Nesse esteio, acompanhei o despontar de padre Marcelo, um expoente da década de 90. Para alguns, blasfêmia, para outros, acessibilidade à religião e a Deus, uma contraposição à violência e a um deus mau, distante e punitivo. Com esse Deus, poderíamos nos divertir. As músicas animadas, paródias, as missas- show, presentificam o Deus amoroso, acolhedor,um Jesus próximo e o irmão que olhava e tocava o outro irmão.
Já tratei da intersecção da religião com a cultura, agora penso sob o prisma da psicologia e da sociologia. Médicos, quando não há mais o que fazer, orientam a esperar pelo pior ou por um milagre; religiosos, mesmo sob o manto da fé, vão ao médico e pedem que Deus aja por meio do doutor. Conclui-se: precisamos cuidar do corpo e da alma.A religiosidade é sim uma forma de cuidar do corpo, da alma e da cabeça. Muita gente passou a ler, e a descobrir os amores ágape, philos; o momento certo de Deus, o "kairós". Filmes religiosos levaram pessoas ao cinema; Interlagos entrou no cenário de turismo religioso, e na rota dos que buscam a paz, o acalanto, o olhar, o aperto de mão na hora da saudação da paz, o convívio na hora da comunhão.
Quem dera os homens entendessem o "dai a César o que é de César", assim, aqueles que amaldiçoam a religião como uma captadora e manipuladora de carneirinhos, fariam uma sociedade mais justa, ai sim, Deus só cuidaria das almas, numa morte e numa vida mais justas.







 

sábado, 11 de abril de 2015

MULTIPLOS DEUSES GRAÇAS A DEUS!

 
Múltiplo(s) deus(es), graças a Deus!

Perdoem-me os devotos, mas considero a religião um fenômeno cultural. E Santo Amaro, que teve e tem em seu histórico vários povos tem, portanto, várias religiões. Claro que a mais abafada foi a indígena, mas ao contrário do que diz na carta de Gândavo: "que o índio não tem lei, nem rei, nem fé", o povo que habitara Pindorama tinha sim suas regras, seus chefes e sua gratidão, sobretudo aos elementos da natureza, personificação ou no mínimo, metonímia, de Deus. Alguns desses índios, sobreviventes à imposição, caminharam para a "Terra sem mal" e reorganizaram suas tribos.
Grosso modo, nós brasileiros somos descritos como cristãos, e isso configura-se, principalmente com o catolicismo, presentificado nas igrejas, nos santos patronos e nos nomes de lugares como: São Paulo, São Vicente, Santos, Santo Amaro. Mas posteriormente à colonização portuguesa, outros povos se fixaram na região: há a catedral luterana, influência da colônia alemã; Há na avenida Senador Teotônio Vilela, a Seicho no iê, da cultura nipônica. Há inúmeros centros de umbanda e candomblé, além de lojas com artigos místicos.
Na década de 90, três denominações e obras arquitetônicas se destacaram na região: a Igreja Universal do Reino de Deus, na Av. João Dias; O templo Quan_inn, no bairro Varginha, referência do budismo chinês; e o templo messiânico, construído como réplica do paraíso na terra, aberto não só para membros, mas também para visitantes. Às margens da represa de Guarapiranga, com cachoeiras, lagos e quedas d’àguas artificiais complementam-se à beleza da fauna e flora local, foi até cenário de episódios da novela Caras e bocas.


Há também, nas adjacências, uma mesquita, na Av. Yarvant Kissijkian, e uma associação beneficente mulçumana, na Vila São José, como lugares de encontros religiosos e manutenção da cultura árabe.

Não podemos deixar de citar algumas religiões que foram marcadas e marcantes para o crescimento de algumas regiões e entidades: os adventistas são conhecidos, também, pela rede de ensino adventista, assim, como o Mackenzie, no centro de São Paulo, é presbiteriano, a PUC é católica e a UMESP, no ABC, é metodista.

Outras religiões são marcantes pela sua cultura, "filosofia" e arquitetura: como a dos Testemunhas de Jeová, a da Congregação Cristã do Brasil, a dos mórmons e as igrejas católicas que marcaram também períodos artísticos.

Como fenômeno cultural e social, a existência de múltiplas religiões revela um Brasil acolhedor. Elas perpassam o tempo, resistem aos preconceitos de outras religiões e coexistem paralelas ou em sincretismo a crenças na astrologia, nos anjos, nos ícones, nos rituais e nas cerimônias. Coexistem em meio à dúvida do deísmo, às inquietudes dos agnósticos e do cientificismo, e, apesar do ateísmo, à descrença.
"A religião é o ópio do povo", frase atribuída a Marx sugere, para mim, a ambiguidade das crenças. Sim, vemos no mundo muita briga, imposição religiosa, manipulação, justificativa para genocídios, em nome de Deus e de dogmas que pregam que o ser humano deve ser bondade, piedade, compaixão e solidariedade.

Talvez mais do que fenômeno cultural, a religiosidade seja uma prática de cidadania: respeito ao próximo, respeito ao outro, construção de um mundo "aqui e agora" melhor. Outra expressão provadora, "Ora que melhora!", talvez não seja uma indicação de passividade, mas de respeito. Calando-nos em oração, dizemos menos o indevido, ouvimos o outro e percebemos a humanidade como raça única, filha do tal Deus que acreditamos. Somos todos irmãos, concluiríamos, se não no mesmo barco, na mesma Terra!

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A HISTÓRIA VIVA DOS CEMITÉRIOS

A HISTÓRIA VIVA DOS CEMITÉRIOS
 
Pode parecer contraditório e fúnebre, mas o cemitério é um museu vivo da história e, muitas vezes, da arte de um lugar. Em Santo Amaro não é diferente: há registros da história por meio das lápides em que se avista os sobrenomes de famílias importantes na região e até mesmo no Brasil. Tem-se na região extremo sul, partindo de Santo Amaro, os cemitérios mais antigos. O da Colônia, doado por Dom Pedro II, para que os estrangeiros pagãos ou de outras religiões fossem lá enterrados, pois, como se sabe, era tradição que a última morada dos católicos fossem em torno da igreja. Outro cemitério importante para a região é o de Parelheiros em que se pode observar nas pedras mortuárias os sobrenomes alemães, japoneses e portugueses. Os indígenas têm seu cemitério próprio.
       Mas um local, em especial, destaca-se pelas obras nas lápides e pelos nomes que figuram no cenário regional e nacional e por ser o cemitério público mais antigo, existente desde 1856. O cemitério de Santo Amaro era o mais importante da cidade, quando essa região era distrito independente.
        Há uma construção que chama a atenção de quem visita os mausoléus. Muitos conhecem o obelisco do Ibirapuera, mas há um outro mais antigo, erguido em 1901. Obviamente é bem menor, mas é muito representativo, pois simboliza a homenagem da colônia italiana ao rei Humberto I, conhecido como "Rei Bom". A cultura italiana, nem sempre enumerada como expressiva na região, ao lado da dos índios, dos portugueses, dos alemães, dos nordestinos é marcada, por exemplo, numa das faculdades, a UNIÍTALO, fundada e mantida por descendentes imigrantes. A presença de italianos e de outros expoentes também está marcada na última morada.
         O poeta Paulo Eiró, o escultor Júlio Guerra, além de pioneiros de Santo Amaro, como família Schimit e Cortez (do ator Raul Cortez) jazem nesse cemitério. Mas nenhum sepultado é tão famoso como o Bento do Portão, um baiano que se instalou nas ruas da cidade santamarense e após a morte tornou-se santo popular (não canonizado).
          Em vida, Bento do Portão foi curandeiro e lenhador. Fazia alguns favores para os moradores, em troca de alimentos e cigarro de palha. Mas, por ser mendigo, era maltratado por alguns moradores que se incomodavam com sua presença em frente a suas casas. Foi encontrado morto próximo à entrada principal do cemitério de Santo Amaro pela Isabel Schimidt que se responsabilizou pela cerimônia funerária. Sete anos após sua morte, no ato da exumação, seu corpo mantinha-se intacto, por isso caracterizara como milagreiro, estendendo seu poder de cura além morte.
          Há uma crença de que ele intercede pelos que o invocam, sobretudo pelos privados de bens materiais. A ele são atribuídos diversos milagres. Seu túmulo é um local tão cultuado que recebeu uma reforma com cobertura para que os fiéis possam se proteger do sol e da chuva.
           O cemitério é um lugar que ninguém deseja estar, mas pode ser um bom lugar de passagem e fixação dessas e de outras histórias.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

As enguias de Eiró

Edição 2797  Gazeta de Santo Amaro


                                                        As Enguias de Eiró
 
Paulo Eiró, para muitos contemporâneos, é apenas o nome de uma rua,  de um teatro e de uma escola localizados na região de Santo Amaro, mas é muito mais que isso: é um registro da história de uma época em que essa região era uma cidade independente da Pauliceia.
Paulo Eiró foi um poeta santamarense e, talvez querendo representar as metamorfoses pelas quais passava, mudou de sobrenome quatro vezes ao longo da vida.
         José Paes, poeta e outro cidadão santamarense, dedicou um verbete no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, estendendo a importância de Paulo Eiró não só à literatura provinciana, mas à literatura regional, quiçá nacional, pois sua vida e discurso apresentam intertextualidade e intersecção com outros literatos importantes do século XIX, sobretudo pelo contato estreito com Álvares de Azevedo- colega da faculdade de Direito do Largo de São Francisco- em que se encontra coincidência na poeticidade melancólica e empática do Romantismo.
          Sua vida poderia ser tematizada em um drama teatral, segundo a biografia A vida de Paulo Eiró, escrita por Schmidt. Nascido em 15 de abril de 1836, aos 11 anos já se dizia apaixonado por sua prima. Precoce em sua inclinação literária, aos 12 anos escreveu junto com o pai: Taboas Chronologicas. Aos 19 anos, formou-se pela Escola Normal de São Paulo e foi nomeado professor em Santo Amaro, exercendo o magistério e seu poetar. Suas produções eram declamadas em círculos literários e acadêmicos. Aos 23 anos, desiludido porque sua musa e amada estava noiva de outro, internou-se em um seminário, mas ficou pouco tempo, aconselhado a retornar a Santo Amaro, pois sua depressão e poesias melancólicas e abolicionistas passaram, por assim dizer, a inquietar o ambiente do seminário.
           Deprimido, fazia caminhadas sem destino. Em uma dessas caminhadas, mais longínquas, chegou a ir para Mariana, em Minas Gerais, passando meses sem dar notícias. Ao voltar, viu uma movimentação próxima à igreja da Sé e, lamentavelmente, para si, era o casamento de sua prima.  E o poeta, segundo Affonso Schmidt, “enlouquecera de amor!”
          Mesmo desiludido, volta a lecionar e a escrever, participando até de eventos comemorativos, como autor de texto de apresentações. Mas as críticas de jornais aforaram suas crises, culminadas em comportamentos inadequados na sociedade, fazendo com que seu pai o internasse em maio de 1871. Após cinco anos de internação, Paes  morreu no Hospício dos Alienados, de meningite, aos 36 anos de idade.
         Não deixou um livro organizado, mas alguns de seus poemas, agrupados por Schimidt estão acessíveis na internet, tornando-o imortal.
        Três versos de seu poema mais famoso, Sobrado,  é registrado no monumento do escultor Julio Guerra: “O homem sonha monumentos /  E só ruínas semeia, /  Para pousada dos ventos; / Como os palácios de areia/  Dos seus brincos infantis, / Mal divisa o que apetece, /  Que tudo se desvanece... /   Feliz quem ama! Feliz!”
   O poeta, homenageado em construções, foi humano:  sofreu de amor, sofreu as críticas, sofreu a loucura (expressão de sua alma, mas também de suas ideias inquietantes não a si  apenas, mas aos outros). Ao lermos  seu aforismo, no que parece um outdoor de cimento e de provocações, somos afrontados. E sua máxima se renova, atualizando-se.
 
                                           Edição 2797 - 20/12/14 a 09 de Janeiro 2015