terça-feira, 6 de outubro de 2015

ESCRITA INSPIRADA EM LEITURA


 



Nem sempre as leituras que se fazem tornam os leitores bons escritores, mas, sem acervo, é impossível escrever bem. No mínimo, ler bastante produz acervo cultural e temático. Às vezes, lemos textos diferentes e vamos fazendo (assim mesmo, gerúndio, ação contínua!) relação entre eles e entre eles e a vida.
     Duas produções sempre estiveram presentes na minha lista pessoal de prediletos: o conto A MOÇA TECELÃ, e a, por assim considerar, crônica reflexiva COMO SALVAR SEU CASAMENTO. Ambos tratam sobre os relacionamentos amorosos. Cito-os aqui porque me inspiraram a escrever, há alguns anos, sobre relacionamentos conjugais, seguindo a estrutura de texto narrativo circular de Marina Colasanti e a temática de Danuza Leão. Ouso compartilhá-lo aqui, o DE VOLTA AO COMEÇO:
   "E passada uma década, aquele enorme amor estava definhando. O sentimento materializado em cartas românticas engavetadas, e aparentemente infinito, corroia-se. Às vezes, numa súplica, ocorria uma cobrança. Esqueciam-se: como lareira, amor se alimenta; planta exige cultivo; sentimento exige ação.
    Moravam na mesma casa, mas a cada dia se distanciavam mais entre o ‘bom-dia’ e o ‘boa-noite’.
    Dividiam despesas, problemas domésticos, mas não mais os sonhos. Não se enxergavam mais. Havia tempos. Havia tempo. Não se escolhia uma roupa para si nem para o outro, era a primeira, sempre a que estivesse à mão. Higiene, não vaidade. Olhos não sincronizados. Bocas não mais se calavam num beijo, silenciando brigas. Não havia. Toques, às vezes, quando na divisão de tarefas, despercebidamente, colocavam a mão sobre um copo, mas jamais sobre os corpos. Um dia, talvez, pensavam, um novo amor para recomeçar. Começar de novo, ser melhor, encantar, encantar-se. Ser o seu melhor, provocar o melhor. Já eram tão desconhecidos, bastariam confirmar, ter coragem. A constatação: estavam separados.
     O primeiro ousou. Numa folha amarrotada, um prenúncio: 'Preciso falar com você à noite!' Dia todo em alerta. À noite, na hora do jantar, olharam-se. Olhavam-se. Viram-se.
Desconhecidos... E de tão desconhecidos, poderiam recomeçar. Olhos na boca que ia começar a falar. Olhos visando os lábios. Olhos visando aos lábios. Um sorriso há muito não fora expresso. 'Você primeiro!' Outra coincidência! Riso e toque no braço. Um arrepio. Talvez um abraço. Desconhecidos, podiam se re-conhecer..."