sábado, 27 de maio de 2017

O fim da cracolândia ou o fim do vício do crack? (editorial)


“Lândia”  é um sufixo que  exprime a ideia de espaço ou domínio territorial, espaço geográfico, região, pertencente ou ocupado por um grupo. “Cracolândia” tem sido, há décadas, o nome que designa a região do centro de São Paulo, onde, por agrupamento “voluntário” ou por  expulsão da sociedade, usuários de drogas têm vivido. Se é que se pode chamar de vida o estado de “zumbização”, alienação que a droga, de efeitos visivelmente deletérios, como o crack, causam. Não se pode ignorar as consequências que essa submissão ocasiona como um ecossistema: para sustento do vício, tudo se troca pela pedra, aparentemente barata, mas que custa o corpo prostituído, a saúde, a sanidade, os valores morais, que são postos à margem, assim como valores éticos de quem, talvez, muito antes de ser viciado não tenha recebido tratamento ético e tratamento minimamente humano da sociedade, quiçá familiar. Não se afirma que se justifique, mas se propõe pensar o presente como o reflexo de um passado.

 Se os não-usuários não se consideram à margem também, consideram-se à mercê do sistema que se instala devido à droga: o tráfico, a violência, a depreciação imobiliária da região, a expulsão das pessoas amedrontadas para circular pela região, e até mesmo o desejo inconfessável de fingir que não existe o problema, nem pessoas em condições sub-humanas.

A cracolândia não é uma questão geográfica: é um problema muito maior. A regionalização e a intervenção nas últimas semanas têm chamado a atenção para o tema mais uma vez, como já ocorreu em outras gestões, com projetos governamentais como “Recomeço”, “Operação Centro Legal”, “Braços abertos” e, agora, o programa “Redenção”, ação da prefeitura atual, gestão João Dória.

Como em todas as estratégias, há inúmeras polêmicas e repercussões político-públicas, pois é um problema que deveria envolver várias secretarias, incluem-se a Secretaria de Justiça, a de Saúde, de Habitação, do Bem-Estar, dos Direitos Humanos, da Assistência e Desenvolvimento Social, de Urbanismo e obras e, de maneira preventiva e inclusiva as Secretarias da Cultura, de Educação, de Esporte e Lazer, para não enumerar TODAS, corrigindo para o nome que as secretarias atuais têm.
As principais críticas dos contrários às ações  têm sido a internação compulsória e o caráter higienista. A secretária municipal de Direitos Humanos de São Paulo, Patrícia Bezerra, comunicou na noite desta quarta (24) sua demissão, por não concordar com as práticas ocorridas nesta semana. Novas intervenções ao projeto de intervenção ocorrerão. Acompanharemos atentos, observando os especialistas que descrevem diferentemente os fatos. As ações consideradas compulsórias e autoritárias por alguns são coerentes ou paradoxais sob o argumento usado em várias justificativas: “quem está sob o efeito da droga não distingue mais o que é certo ou errado ou o melhor para si, a não ser manter o consumo para suprir o vício” ?