“Lândia” é um sufixo que exprime a ideia de espaço ou domínio
territorial, espaço geográfico, região, pertencente ou ocupado por
um grupo. “Cracolândia” tem sido, há décadas, o nome que designa a região
do centro de São Paulo, onde, por agrupamento “voluntário” ou por expulsão da sociedade, usuários de drogas têm
vivido. Se é que se pode chamar de vida o estado de “zumbização”, alienação que
a droga, de efeitos visivelmente deletérios, como o crack, causam. Não se pode
ignorar as consequências que essa submissão ocasiona como um ecossistema: para
sustento do vício, tudo se troca pela pedra, aparentemente barata, mas que
custa o corpo prostituído, a saúde, a sanidade, os valores morais, que são
postos à margem, assim como valores éticos de quem, talvez, muito antes de ser
viciado não tenha recebido tratamento ético e tratamento minimamente humano da
sociedade, quiçá familiar. Não se afirma que se justifique, mas se propõe
pensar o presente como o reflexo de um passado.
Se os não-usuários não se consideram à margem
também, consideram-se à mercê do sistema que se instala devido à droga: o
tráfico, a violência, a depreciação imobiliária da região, a expulsão das
pessoas amedrontadas para circular pela região, e até mesmo o desejo
inconfessável de fingir que não existe o problema, nem pessoas em condições
sub-humanas.
A
cracolândia não é uma questão geográfica: é um problema muito maior. A
regionalização e a intervenção nas últimas semanas têm chamado a atenção para o
tema mais uma vez, como já ocorreu em outras gestões, com projetos governamentais
como “Recomeço”, “Operação Centro Legal”, “Braços abertos” e, agora, o programa
“Redenção”, ação da prefeitura atual, gestão João Dória.
Como
em todas as estratégias, há inúmeras polêmicas e repercussões
político-públicas, pois é um problema que deveria envolver várias secretarias,
incluem-se a Secretaria de Justiça, a de Saúde, de Habitação, do Bem-Estar, dos
Direitos Humanos, da Assistência e Desenvolvimento Social, de Urbanismo e obras
e, de maneira preventiva e inclusiva as Secretarias da Cultura, de Educação, de
Esporte e Lazer, para não enumerar TODAS, corrigindo para o nome que as
secretarias atuais têm.
As principais críticas
dos contrários às ações têm sido a
internação compulsória e o caráter higienista. A secretária municipal de Direitos Humanos de
São Paulo, Patrícia Bezerra, comunicou na noite desta quarta (24) sua demissão,
por não concordar com as práticas ocorridas nesta semana. Novas intervenções ao projeto de intervenção ocorrerão. Acompanharemos
atentos, observando os especialistas que descrevem diferentemente os fatos. As
ações consideradas compulsórias e autoritárias por alguns são coerentes ou
paradoxais sob o argumento usado em várias justificativas: “quem está sob o efeito
da droga não distingue mais o que é certo ou errado ou o melhor para si, a não
ser manter o consumo para suprir o vício” ?
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