A HISTÓRIA VIVA DOS CEMITÉRIOS
Pode parecer contraditório e fúnebre, mas o cemitério é um museu vivo da história e, muitas vezes, da arte de um lugar. Em Santo Amaro não é diferente: há registros da história por meio das lápides em que se avista os sobrenomes de famílias importantes na região e até mesmo no Brasil. Tem-se na região extremo sul, partindo de Santo Amaro, os cemitérios mais antigos. O da Colônia, doado por Dom Pedro II, para que os estrangeiros pagãos ou de outras religiões fossem lá enterrados, pois, como se sabe, era tradição que a última morada dos católicos fossem em torno da igreja. Outro cemitério importante para a região é o de Parelheiros em que se pode observar nas pedras mortuárias os sobrenomes alemães, japoneses e portugueses. Os indígenas têm seu cemitério próprio.
Mas um local, em especial, destaca-se pelas obras nas lápides e pelos nomes que figuram no cenário regional e nacional e por ser o cemitério público mais antigo, existente desde 1856. O cemitério de Santo Amaro era o mais importante da cidade, quando essa região era distrito independente.Há uma construção que chama a atenção de quem visita os mausoléus. Muitos conhecem o obelisco do Ibirapuera, mas há um outro mais antigo, erguido em 1901. Obviamente é bem menor, mas é muito representativo, pois simboliza a homenagem da colônia italiana ao rei Humberto I, conhecido como "Rei Bom". A cultura italiana, nem sempre enumerada como expressiva na região, ao lado da dos índios, dos portugueses, dos alemães, dos nordestinos é marcada, por exemplo, numa das faculdades, a UNIÍTALO, fundada e mantida por descendentes imigrantes. A presença de italianos e de outros expoentes também está marcada na última morada.
O poeta Paulo Eiró, o escultor Júlio Guerra, além de pioneiros de Santo Amaro, como família Schimit e Cortez (do ator Raul Cortez) jazem nesse cemitério. Mas nenhum sepultado é tão famoso como o Bento do Portão, um baiano que se instalou nas ruas da cidade santamarense e após a morte tornou-se santo popular (não canonizado).
Em vida, Bento do Portão foi curandeiro e lenhador. Fazia alguns favores para os moradores, em troca de alimentos e cigarro de palha. Mas, por ser mendigo, era maltratado por alguns moradores que se incomodavam com sua presença em frente a suas casas. Foi encontrado morto próximo à entrada principal do cemitério de Santo Amaro pela Isabel Schimidt que se responsabilizou pela cerimônia funerária. Sete anos após sua morte, no ato da exumação, seu corpo mantinha-se intacto, por isso caracterizara como milagreiro, estendendo seu poder de cura além morte.
Há uma crença de que ele intercede pelos que o invocam, sobretudo pelos privados de bens materiais. A ele são atribuídos diversos milagres. Seu túmulo é um local tão cultuado que recebeu uma reforma com cobertura para que os fiéis possam se proteger do sol e da chuva.
O cemitério é um lugar que ninguém deseja estar, mas pode ser um bom lugar de passagem e fixação dessas e de outras histórias.
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