Múltiplo(s) deus(es), graças a Deus!
Perdoem-me os devotos, mas considero a religião um fenômeno cultural. E Santo Amaro, que teve e tem em seu histórico vários povos tem, portanto, várias religiões. Claro que a mais abafada foi a indígena, mas ao contrário do que diz na carta de Gândavo: "que o índio não tem lei, nem rei, nem fé", o povo que habitara Pindorama tinha sim suas regras, seus chefes e sua gratidão, sobretudo aos elementos da natureza, personificação ou no mínimo, metonímia, de Deus. Alguns desses índios, sobreviventes à imposição, caminharam para a "Terra sem mal" e reorganizaram suas tribos.
Grosso modo, nós brasileiros somos descritos como cristãos, e isso configura-se, principalmente com o catolicismo, presentificado nas igrejas, nos santos patronos e nos nomes de lugares como: São Paulo, São Vicente, Santos, Santo Amaro. Mas posteriormente à colonização portuguesa, outros povos se fixaram na região: há a catedral luterana, influência da colônia alemã; Há na avenida Senador Teotônio Vilela, a Seicho no iê, da cultura nipônica. Há inúmeros centros de umbanda e candomblé, além de lojas com artigos místicos.
Na década de 90, três denominações e obras arquitetônicas se destacaram na região: a Igreja Universal do Reino de Deus, na Av. João Dias; O templo Quan_inn, no bairro Varginha, referência do budismo chinês; e o templo messiânico, construído como réplica do paraíso na terra, aberto não só para membros, mas também para visitantes. Às margens da represa de Guarapiranga, com cachoeiras, lagos e quedas d’àguas artificiais complementam-se à beleza da fauna e flora local, foi até cenário de episódios da novela Caras e bocas.
Há também, nas adjacências, uma mesquita, na Av. Yarvant Kissijkian, e uma associação beneficente mulçumana, na Vila São José, como lugares de encontros religiosos e manutenção da cultura árabe.
Não podemos deixar de citar algumas religiões que foram marcadas e marcantes para o crescimento de algumas regiões e entidades: os adventistas são conhecidos, também, pela rede de ensino adventista, assim, como o Mackenzie, no centro de São Paulo, é presbiteriano, a PUC é católica e a UMESP, no ABC, é metodista.
Outras religiões são marcantes pela sua cultura, "filosofia" e arquitetura: como a dos Testemunhas de Jeová, a da Congregação Cristã do Brasil, a dos mórmons e as igrejas católicas que marcaram também períodos artísticos.
Como fenômeno cultural e social, a existência de múltiplas religiões revela um Brasil acolhedor. Elas perpassam o tempo, resistem aos preconceitos de outras religiões e coexistem paralelas ou em sincretismo a crenças na astrologia, nos anjos, nos ícones, nos rituais e nas cerimônias. Coexistem em meio à dúvida do deísmo, às inquietudes dos agnósticos e do cientificismo, e, apesar do ateísmo, à descrença.
"A religião é o ópio do povo", frase atribuída a Marx sugere, para mim, a ambiguidade das crenças. Sim, vemos no mundo muita briga, imposição religiosa, manipulação, justificativa para genocídios, em nome de Deus e de dogmas que pregam que o ser humano deve ser bondade, piedade, compaixão e solidariedade.
"A religião é o ópio do povo", frase atribuída a Marx sugere, para mim, a ambiguidade das crenças. Sim, vemos no mundo muita briga, imposição religiosa, manipulação, justificativa para genocídios, em nome de Deus e de dogmas que pregam que o ser humano deve ser bondade, piedade, compaixão e solidariedade.
Talvez mais do que fenômeno cultural, a religiosidade seja uma prática de cidadania: respeito ao próximo, respeito ao outro, construção de um mundo "aqui e agora" melhor. Outra expressão provadora, "Ora que melhora!", talvez não seja uma indicação de passividade, mas de respeito. Calando-nos em oração, dizemos menos o indevido, ouvimos o outro e percebemos a humanidade como raça única, filha do tal Deus que acreditamos. Somos todos irmãos, concluiríamos, se não no mesmo barco, na mesma Terra!

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