Caro leitor, eu nunca escrevi sobre isso, mas tenho problema no
fígado. Embora não tenha bebido ou danificado conscientemente o meu órgão,
tenho cirrose e, mesmo sendo sempre seletiva em que tomar como remédio ( ou
droga) lembro que outro nome para farmácia
é drogaria, onde se busca a cura,mas também encontram-se efeitos colaterais:
devo ter cirrose medicamentosa. Bocage, poeta árcade, criticava os ungüentos,
que mais matavam que curavam. A literatura fala desse tema, entre outros, da simbologia do fígado. Não dá para falar de
problemas hepáticos sem citar o mito grego de Prometeu que roubou fogo, símbolo
da tecnologia e da sabedoria, pois traria avanço à sociedade. Talvez ele revele bem,
metaforicamente, o suplício pelo qual nós, com problemas hepáticos, passamos.
Na
mitologia grega, Prometeu foi um defensor da humanidade, conhecido por sua
astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Héstia e o dar aos
mortais. Zeus ,temendo que os mortais ficassem tão poderosos quanto os próprios
deuses, amarrou-o a uma rocha por toda a eternidade, enquanto uma grande águia
comia todo dia seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte. Ou seja, seu
suplício era contínuo. A ciência sabe que o fígado se regenera, mas isso é meia
verdade. Um fígado cirrótico é um fígado cheio de cicatrizes, por isso não se
regenera mais, ao contrário de quando está bom em que pode ter um pedaço
retirado. É o que acontece em transplantes entres vivos. Há, além das mais de
500 funções primárias do fígado, algumas simbólicas. Assim como para o coração
há uma convenção, inclusive de desenho diferente da anatomia real e é considerado
o manifestador de sentimento. O fígado também foi considerado por muito tempo o
órgão dos sentimentos. Daí falarmos “pessoa doce”, “pessoa amarga”, “ódio
figadal”.
A Prometeu é creditado um grande passo da evolução humana. E o
fígado, que sofre calado, é culpado pela crises de embriaguez. Típico do homem
o uso da metonímias: a causa pela consequência. A parte pelo todo. Atentemo-
nos!

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