domingo, 29 de novembro de 2015

O FÍGADO E O FOGO DE PROMETEU















Caro leitor, eu nunca escrevi sobre isso, mas tenho problema no fígado. Embora não tenha bebido ou danificado conscientemente o meu órgão, tenho cirrose e, mesmo sendo sempre seletiva em que tomar como remédio ( ou droga) lembro que outro nome para farmácia é drogaria, onde se busca a cura,mas também encontram-se efeitos colaterais: devo ter cirrose medicamentosa. Bocage, poeta árcade, criticava os ungüentos, que mais matavam que curavam. A literatura fala desse tema, entre  outros,  da simbologia do fígado. Não dá para falar de problemas hepáticos sem citar o mito grego de Prometeu que roubou fogo, símbolo da tecnologia e da sabedoria, pois traria avanço  à sociedade. Talvez ele revele bem, metaforicamente, o suplício pelo qual nós, com problemas hepáticos, passamos.  
     Na mitologia grega, Prometeu foi um defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Héstia e o dar aos mortais. Zeus ,temendo que os mortais ficassem tão poderosos quanto os próprios deuses, amarrou-o a uma rocha por toda a eternidade, enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte. Ou seja, seu suplício era contínuo. A ciência sabe que o fígado se regenera, mas isso é meia verdade. Um fígado cirrótico é um fígado cheio de cicatrizes, por isso não se regenera mais, ao contrário de quando está bom em que pode ter um pedaço retirado. É o que acontece em transplantes entres vivos. Há, além das mais de 500 funções primárias do fígado, algumas simbólicas. Assim como para o coração há uma convenção, inclusive de desenho diferente da anatomia real e é considerado o manifestador de sentimento. O fígado também foi considerado por muito tempo o órgão dos sentimentos. Daí falarmos “pessoa doce”, “pessoa amarga”, “ódio figadal”.
        A Prometeu é creditado um grande passo da evolução humana. E o fígado, que sofre calado, é culpado pela crises de embriaguez. Típico do homem o uso da metonímias: a causa pela consequência. A parte pelo todo. Atentemo- nos!


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