Nossa Senhora
Aparecida, patrona do Brasil católico: Virgens Marias precursoras da devoção
Roberto Carlos já
cantou que todas as Nossas Senhoras são a mesma mãe de Deus. Elas são as
variações da representação de Santa Maria, mãe de Jesus, outrora "mãe de
Deus", pela tradição católica. Temos diferentes nomeações e iconografias,
aludindo aos fatos sociais, geográficos, artísticos, literários e culturais dos
povos que as veneram.
No que se refere à
hagiografia no Brasil, ocorrem-me
algumas reflexões, incitada, sobretudo, pelas comemorações do tricentenário de
Nossa Senhora Aparecida, anunciado pela igreja católica no dia 12 de outubro
passado e, para inquietude de muitos, tematizado no carnaval deste ano, em São
Paulo, pela agremiação Vila Maria, com autorização e supervisão da concílio
paulista. Mas, antes de citar esse fato (polêmica), tratarei de uma inquietude:
as santas consideradas como padroeiras por um período, mas não perpetuadas como
tal.
Pela tradição
católica, conta-se que, no Brasil, uma santa do século XVI, foi entalhada por
um artesão indígena em Pernambuco, que colocou traços do seu povo na imagem.
Ela fora encomendada por Anchieta e, século depois, foi guardada por
capuchinhos, em proteção à invasão holandesa, no século VII. Como os monges
eram italianos, mandaram-na para seu país, e lá se referiam a ela como “Madonna
del Brasile”. Mas sua fama de milagrosa teria ocorrido quando a Igreja de Santo Efrén, onde estava, foi totalmente destruída pelo fogo, em 22 de Fevereiro de 1840. Quando os frades
vasculharam o que restou nas cinzas, encontraram totalmente intacta a imagem da
Virgem Maria brasileira e tornaram-se devotos dela. A devoção chegou ao Brasil só no século
seguinte, em 1924, quando o bispo D. Frederico de Souza Costa, ouvindo falar da
santa, viaja até Nápoles e traz a
fama dela para o Brasil, promovendo, com
isso, a construção de igrejas dedicadas a ela e o crescimento de devotos até
hoje.
Pelo
nome, embora a referência tenha sido atribuída pelos italianos, foi uma
associação ao nosso país. A imagem de Nossa Senhora Aparecida já havia sido
achada nessa época, mas como afirmado, a existência dessa santa era dos anos
1.500 e, seus traços mestiços, poderiam
bem tê-la tornado símbolo da religiosidade católica nacional. Mas nos tempos de
Anchieta, e durante muito tempo, a tradição portuguesa ainda imperava, portanto,
Nossa Senhora da Conceição, a santa portuguesa, era também considerada, no
Brasil, a principal referência à mãe de Jesus.
A
hipótese é essa: a imagem achada e referenciada como Aparecida, fora feito como
imagem Virgem Maria ou da santa portuguesa, pois nos primeiros registros, a
expressão utilizada era “Nossa Senhora da Conceição Aparecida”. Há 300 anos de
histórias, não só sobre o aspecto sobrenatural, por isso trataremos na próxima
coluna os aspectos religiosos, como também os históricos e políticos referentes
à permanência da tradição desse ícone
nacional católico.

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